Transcrição Desesperança criativa
O processo de validação da ineficácia das estratégias antigas
A «Desesperança Criativa» é uma fase técnica da intervenção que muitas vezes soa intimidante, mas é profundamente libertadora.
Não se trata de induzir desespero no cliente em relação à sua vida ou ao seu futuro, mas sim de gerar desesperança em relação às estratégias de controlo que tem utilizado até agora.
Muitas pessoas chegam à terapia depois de terem tentado tudo para eliminar a sua ansiedade: medicação, livros de autoajuda, álcool, pensamento positivo, evitação, distração... e, no entanto, o problema persiste ou piorou.
O terapeuta valida essa experiência: «Você trabalhou incrivelmente duro para resolver isso. Você cavou com força para sair do buraco. Mas, se observarmos a sua experiência, alguma coisa disso funcionou a longo prazo?».
O objetivo é que o cliente reconheça, a partir da sua própria experiência e não porque o terapeuta lhe diz, que a sua «caixa de ferramentas» atual está vazia de soluções reais.
Precisamos que a pessoa abandone a esperança de que «se eu me esforçar um pouco mais para controlar isto, vai desaparecer», porque é essa esperança que a mantém presa na luta.
É um momento de honestidade radical: reconhecer que o sistema de navegação que tem usado está avariado.
Abrindo a porta a novas alternativas através do abandono da luta
Só quando a pessoa percebe que a luta é inútil e contraproducente é que está disposta a tentar algo radicalmente diferente.
Se estiver preso num buraco e tiver uma pá, a resposta instintiva é cavar para sair. Mas quanto mais cava, mais fundo afunda. A desesperança criativa consiste em largar a pá.
No início, largar a pá parece ser desistir, mas na verdade é o primeiro passo para parar de afundar. Esta fase cria um vazio fértil.
Ao desmontar a agenda de controlo («tenho de me recompor»), fica espaço para introduzir a agenda de aceitação («posso estar comigo mesmo tal como sou»).
Passamos de perguntar «Como faço para não sentir isto?» para perguntar «O que posso fazer com a minha vida enquanto sinto isto?».
É aqui que surge a criatividade: ao deixar de investir toda a energia numa guerra civil interna contra as próprias emoções, essa energia fica disponível para construir uma vida valiosa.
A «desesperança» refere-se à estratégia de controlo, enquanto o «criativo» se refere à nova possibilidade de viver que se abre quando deixamos de tentar controlar o incontrolável.
Resumo
Esta fase terapêutica procura validar a experiência do cliente para que ele reconheça que as suas tentativas anteriores de controlar a ansiedade não funcionaram, gerando uma desesperança construtiva em relação a essas estratégias ineficazes.
O objetivo é que a pessoa «solte a pá» com que tem cavado o seu próprio buraco, compreendendo que deixar de lutar não é desistir, mas sim o primeiro passo para se libertar.
Ao abandonar a agenda de controlo, cria-se um vazio fértil que permite introduzir a aceitação, redirecionando a energia da guerra interna para a construção criativa de uma vida valiosa.
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