Transcrição A Armadilha da Codependência
A física do colapso partilhado
Para compreender a fragilidade das relações baseadas na necessidade mútua, podemos visualizar uma estrutura arquitetónica.
Imaginemos duas colunas que, em vez de se manterem eretas sobre as suas próprias fundações para sustentar um telhado comum, decidem inclinar-se uma contra a outra, formando um triângulo precário.
Enquanto ambas exercem a mesma pressão e força, a estrutura permanece de pé, criando uma falsa sensação de estabilidade. No entanto, essa configuração é intrinsecamente perigosa e desgastante.
Se uma das colunas enfraquecer, se mover ou precisar de um momento de descanso, a outra inevitavelmente cairá no chão, provocando o colapso total da construção.
Esta analogia ilustra perfeitamente a dinâmica da co-dependência. Ela ocorre quando dois indivíduos renunciam à sua autonomia emocional e física para se apoiarem completamente um no outro.
No início, isso pode ser interpretado romanticamente como uma fusão total, mas a realidade é que se está a depositar o peso da própria existência sobre os ombros do parceiro. Com o tempo, sustentar o peso de outro ser humano adulto torna-se insustentável.
Os músculos emocionais se cansam, surge o ressentimento pela carga constante e o medo paralisante de que, se o outro se afastar, a nossa própria identidade se desintegre.
Não é uma união de duas forças, mas uma dependência que drena a vitalidade de ambos.
A transição da necessidade para a preferência
A saúde relacional requer uma reestruturação dos alicerces, passando do paradigma da necessidade ("não consigo viver sem ti") para o paradigma da preferência ("consigo viver sem ti, mas escolho não o fazer").
Quando uma pessoa descobre que possui a força interna para se sustentar por si mesma, a dinâmica muda radicalmente. Ela já não procura no outro um pilar de sobrevivência, mas um companheiro de viagem.
Essa autossuficiência emocional não implica frieza ou distância, mas a capacidade de se manter de pé, eliminando a pressão sufocante que era exercida sobre o parceiro para que ele proporcionasse validação, segurança e propósito.
O objetivo é chegar a um estado em que a relação seja um valor acrescentado e não uma tábua de salvação.
Se eu estou completo e tu estás completo, a nossa união não nasce da carência, mas da abundância.
Isso elimina o medo constante da perda e da manipulação emocional que surge quando sentimos que a nossa vida depende literalmente da presença do outro.
Ao retirar o «peso» que depositávamos no parceiro, permitimos que ele respire e seja quem realmente é, em vez de obrigá-lo a ser quem precisamos que ele seja para acalmar as nossas inseguranças.
A verdadeira estabilidade não vem de se apoiar mutuamente para não cair, mas de caminhar lado a lado, cada um responsável pelo seu próprio equilíbrio.
RESUMO
A co-dependência funciona como duas estruturas inclinadas uma contra a outra; embora pareça união, é uma postura insustentável, em que o movimento de um provoca inevitavelmente a queda estrondosa do outro.
É vital transformar a relação, eliminando o peso da sobrevivência emocional que colocamos no parceiro, compreendendo que nenhum ser humano tem a capacidade infinita de sustentar a vida de outro.
A saúde do vínculo é alcançada quando ambos os indivíduos se mantêm eretos por si mesmos, escolhendo compartilhar seu caminho por desejo genuíno e prazer, não por uma necessidade desesperada de suporte vital.
a armadilha da codependencia