Transcrição Transferência e contratransferência
Análise da transferência no sistema de casal
A transferência refere-se ao fenómeno pelo qual os pacientes transferem para o terapeuta sentimentos, desejos e atitudes que originalmente pertenciam a figuras significativas do seu passado (pais, cuidadores).
Na terapia de casal, isso se complica porque a transferência não é apenas individual, mas triangular.
Um membro pode idealizar o terapeuta como o «pai bom» que nunca teve, procurando aliar-se a ele, enquanto o outro pode percebê-lo como uma figura crítica ou autoritária, reagindo com hostilidade ou desconfiança. Este fluxo emocional não é estático; flutua ao longo do tratamento.
O terapeuta deve estar atento a essas mudanças: por que hoje me veem como um salvador e na semana passada como um inimigo? Analisar essas projeções é vital porque elas replicam as dinâmicas que o casal tem entre si e com o mundo exterior.
Se alguém busca constantemente a aprovação do terapeuta, é provável que faça o mesmo em seu casamento.
Gestão da contratransferência e da ressonância do terapeuta
A contratransferência abrange as reações emocionais, conscientes e inconscientes, do terapeuta em relação aos pacientes.
No trabalho com casais, é comum sentir afinidade por um dos membros ou irritação em relação ao outro.
Se essas emoções não forem analisadas, podem levar a intervenções tendenciosas ou à perda da neutralidade.
O terapeuta deve perguntar-se: «Por que é que a passividade deste homem me irrita tanto? Será que me lembra alguém da minha própria vida?».
Um exemplo clássico é quando o terapeuta se sente frustrado porque o casal não avança e começa a pressioná-los ou a sentir-se incompetente.
Isso pode ser uma resposta à resistência do casal, mas também pode tocar nos próprios temas de exigência do profissional.
O autoconhecimento é a principal ferramenta para evitar agir com essas emoções na sessão e, em vez disso, usá-las como dados diagnósticos sobre o que o casal provoca nos outros.
A análise do comportamento cotidiano como fonte de dados
Para compreender estas dinâmicas, a abordagem psicodinâmica dá grande atenção à «análise do comportamento cotidiano» ou ao relato do dia a dia.
Não se trata apenas de ouvir anedotas, mas de observar como o paciente lida com a sua vida diária, os seus pequenos conflitos, os seus esquecimentos e as suas rotinas.
Esses detalhes microcósmicos geralmente contêm a estrutura de sua neurose e seus mecanismos de defesa.
Por exemplo, se um casal relata repetidamente incidentes de trânsito ou conflitos menores com vizinhos em que sempre se sentem vítimas, isso informa sobre a sua posição existencial e a sua provável transferência na terapia (sentir-se atacado pelo terapeuta).
Analisar esses padrões cotidianos permite prever e trabalhar as resistências antes que elas sabotem o tratamento.
Resumo
A transferência implica deslocar sentimentos de figuras significativas do passado diretamente para o terapeuta. No casal, ela é triangular, podendo idealizar o profissional ou percebê-lo como uma figura crítica autoritária atualmente.
A contratransferência abrange as reações emocionais do terapeuta em relação aos seus pacientes. Analisar a afinidade ou irritação evita preconceitos, utilizando essas emoções como dados diagnósticos sobre a dinâmica relacional observada atualmente.
A análise do comportamento cotidiano informa sobre a posição existencial do casal. Observar rotinas e conflitos menores permite prever resistências antes que elas sabotem o tratamento psicológico integral.
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