A atração interpessoal: Orientação sexual
Desvincular identidade e atração
Um erro recorrente na educação familiar consiste em associar erroneamente a autoperceção pessoal à direção do desejo afetivo. É fundamental separar ambos os conceitos de forma cirúrgica.
Enquanto o constructo identitário responde à pergunta de quem é o sujeito perante o espelho, a atração interpessoal define para quem se dirige a sua atenção romântica.
Um indivíduo pode apresentar uma estética que desafie as convenções tradicionais, sem que isso determine, de forma alguma, a sua inclinação amorosa.
Na maioria dos lares, parte-se do pressuposto automático de que todos os membros irão desenvolver laços exclusivamente heterossexuais.
Esta suposição tácita infiltra-se nas conversas do dia a dia, nas perguntas sobre futuros parceiros e nas projeções a longo prazo.
Ao dar por certo este único caminho, constrói-se uma barreira invisível de silêncio.
Se um jovem começar a experimentar sentimentos que se desviam dessa norma pré-estabelecida, sentirá que as suas emoções são imperfeitas ou decepcionantes para os seus responsáveis.
Modificar a linguagem doméstica para incluir todas as possibilidades relacionais, utilizando termos neutros ao perguntar sobre os seus interesses sentimentais, derruba barreiras.
A fluidez e o respeito pelos ritmos próprios (págs. 72-73)
A cristalização das inclinações amorosas raramente constitui um acontecimento linear ou repentino; pelo contrário, caracteriza-se frequentemente por uma fluidez inicial acentuada no processo.
Durante a complexa fase inicial da adolescência, é muito comum que os laços afetivos passem por diversas fases de tentativa e erro profundo.
Nesta delicada situação do dia a dia, o impulso controlador de alguns adultos leva-os a exigir rótulos definitivos ao menor sinal de experimentação.
Assediar o adolescente com questionários intrusivos sobre as suas preferências íntimas apenas gera um efeito rebote de ocultação extrema.
O nobre papel do protetor não consiste em catalogar clinicamente as emoções do menor, mas sim em proporcionar um refúgio de serenidade onde a dúvida seja permitida e celebrada.
Proporcionar o benefício do tempo é o ato mais puro de amor incondicional.
Abster-se de emitir diagnósticos precipitados sobre o seu futuro romântico concede-lhe a margem necessária para consolidar a sua bússola interior, sem a pressão asfixiante de ter de satisfazer os padrões preconcebidos da estrutura familiar tradicional e dominante.
Resumo
A orientação do desejo romântico funciona de forma completamente independente da autoperceção ou do aspeto físico. Confundir estes conceitos gera expectativas erradas que dificultam gravemente a comunicação honesta no seio da família nuclear.
Presumir a heterossexualidade como norma predeterminada invisibiliza outras realidades afetivas totalmente válidas. Manter uma linguagem inclusiva e aberta garante que os menores não sintam a obrigação de esconder os seus primeiros sentimentos profundos de atração romântica.
O desenvolvimento afetivo requer tempo e espaço livres de pressões interrogativas contínuas. Exigir definições prematuras sobre as preferências pessoais gera uma imensa ansiedade desnecessária que bloqueia a exploração muito pacífica do próprio mundo emocional interno.
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